Raízes

A Sopro de Gaia não começou como plano de negócio. Começou como uma busca.

Eu queria alguma coisa real

Antes de qualquer planta, antes de qualquer instrumento, existia um incômodo. Uma vontade de encontrar alguma coisa verdadeira — e não mais um conjunto de dogmas, de doutrinas e de respostas prontas que alguém tinha decidido antes de eu chegar.

Eu não sabia o que estava procurando. Sabia o que eu não queria mais.

Então comecei a dar atenção a essa vontade. Fui para a filosofia, fui ressignificar conceitos, fui remexer no que eu achava que sabia. E encontrei coisas que me sacudiram — algumas doeram, porque perceber o quanto a gente carrega de ideia emprestada não é confortável.

Mas era isso que eu estava procurando: alguma coisa que não dependesse de eu acreditar em ninguém.

O encontro que não precisou de intermediário

Foi aí que apareceram as Medicinas da floresta.

E o que fez elas serem diferentes de tudo o que eu tinha visto até então foi uma coisa só, e ela é simples de dizer:

Não precisava de intermediário. Era eu diante dos meus próprios conceitos e das minhas próprias crenças.

Sem ninguém no meio me dizendo o que era certo e o que era errado. Sem doutrina, sem hierarquia, sem alguém autorizando a minha experiência. Eu podia buscar por conta própria — e isso foi extremamente reconfortante.

Vale uma distinção que eu faço questão de deixar clara, porque as duas palavras se parecem e querem dizer coisas opostas.

O Kuripe, o Tepi e o cachimbo são intercessores. São ferramentas sagradas — o que possibilita o contato de forma essencial. Eles conduzem, e não autorizam nada.

Intermediário é outra coisa: é alguém que se coloca entre a pessoa e o sagrado. Disso eu não precisei.

É um caminho em que você sente força e liberdade para trilhar sozinho.

A primeira comunhão

Quando comunguei a Ayahuasca pela primeira vez, foi como alimento. Não no sentido figurado — no sentido de uma coisa que nutre e que faltava.

E a partir dali outras coisas começaram a nutrir também.

As minhas relações com as pessoas, com o universo e com os elementos deixaram de ser apenas contato físico. Ganharam outro potencial. Passei a perceber camadas onde antes eu via só superfície.

O nome veio no meu primeiro Rapé

Foi difícil. Um impacto que eu não esperava. O corpo inteiro suou, veio a catarse.

E depois, passado impacto físico, sobrou uma coisa que eu não sabia nomear.

Eu tinha vindo de uma vida de ilusões, com uma busca interna pela verdade acontecendo por baixo. Ali eu entendi que havia essência. Havia alma. E era contato com a natureza — direto, sem ninguém no meio.

A primeira frase que me veio foi:

Isso é o sopro da natureza.

Natureza, para mim, nunca foi matéria. É algo vivo, consciente, que se adapta e evolui. Isso é Gaia.

O Sopro de Gaia vem daí. É o sopro da natureza.

Nada foi de graça

Preciso dizer isso, porque é fácil contar essa história como se ela fosse só bonita.

Eu passei peia no ritual. Sofri em alguns momentos, como todo praticante que caminha com essas Medicinas sofreu em algum ponto. Não é caminho de conforto, e quem promete que é está vendendo outra coisa.

E foi ali que eu entendi uma coisa que carrego até hoje:

A superação é postura espiritual. É ter aguentado a dificuldade e tirado dela uma resolução, uma evolução, um ponto de vista melhor que o anterior.

Não é sobre não cair. É sobre o que se faz depois.

A corrente

Nada do que eu sei nasceu comigo.

Eu recebi. De gente que ensinou, de gente que corrigiu, de gente que teve paciência comigo. E recebi também da própria caminhada — do erro, do teste, da coisa que não deu certo e me obrigou a olhar de outro jeito.

Aí eu construí em cima. Anos de prática, de estudo e de mão até chegar no que a casa faz hoje.

E aquilo que se recebe não quer ficar parado em quem recebeu. Quer circular.

É por isso que este blog existe. Não é vitrine, e não é currículo. É a minha parte na corrente.

É um compromisso que vai muito além da minha vida. Eu quero levar isso para a minha alma, para a minha jornada, como uma herança. 

Por que uma árvore

A imagem da Árvore não foi escolhida por ser bonita.

Ela é um projeto natural que já deu certo. Raiz que sustenta, tronco que conduz, galho que divide, folha que recebe a luz. Ninguém precisa aprender a navegar numa árvore — a forma já é entendida antes de qualquer explicação.

E isso vem de um entendimento que eu carrego: o que se tira da natureza é uma perfeição que levou muito tempo para se construir. Muita adaptação, muita evolução, tanto nas plantas quanto nos animais. As coisas não estão lá por acaso.

Quando a gente se inspira num projeto natural para trazer alguma coisa para a nossa realidade, aquilo praticamente já deu certo antes.

Foi assim que a Árvore do Conhecimento nasceu. E é por isso que a gente espera que ela seja fácil de explorar.

A floresta não está só na nossa frente

A natureza não é cenário. Não é aquilo que a gente observa de longe, num fim de semana.

Ela está no jeito que a gente respira, no desenho das nossas veias, na espiral dos galhos, na inteligência das raízes, no ritmo dos ciclos. A água do nosso corpo já passou por rios, nuvens e oceanos. O ar que entra agora atravessou folhas, animais e montanhas antes de chegar aqui.

Quando eu olho a geometria de uma folha e encontro os mesmos padrões numa concha, num rio e num galho, isso não é coincidência bonita. É a vida se organizando em relação — o pequeno e o imenso escrevendo na mesma língua.

Ancestralidade não é estética

Ancestralidade virou palavra fácil. Vira cor terrosa, vira filtro, vira imagem de raiz atrás de qualquer frase.

Para mim, ancestralidade é relação com o tempo. É saber que estou vivo porque muitas gerações viveram antes. É reconhecer conhecimentos que sobreviveram à colonização, à expulsão e à tentativa de apagar línguas e modos de vida. E é reconhecer que muito do que chegou até aqui chegou fragmentado — e que a fragmentação também é história.

Povos indígenas não são passado. São povos vivos, contemporâneos, diversos, criando futuro. As culturas deles não são peça de museu, e as tradições não são ruína.

Por isso eu me aproximo com humildade. Não transformo o outro em espelho das minhas necessidades. Não tiro um símbolo do contexto dele para vender como se fosse universal. Há conhecimentos que não me pertencem — e reconhecer isso faz parte do respeito.

Esta árvore está em construção

A forma ainda está amadurecendo. Os textos ainda serão revistos, e certamente vou corrigir coisas pelo caminho.

Isso não é fraqueza. É o que acontece com tudo que está vivo.

Se você quiser saber como eu caminho — o que eu afirmo, o que eu me recuso a afirmar e o que eu guardo —, isso está no Tronco.

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O conhecimento compartilhado nunca termina em quem o recebe.

Cada leitura rega esta Árvore.

Sopro de Gaia

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