O que é xamanismo, e por que nenhum artigo dá conta
Este texto não vai definir o xamanismo.
Não por falta de vontade. É que a definição não existe — e tem uma coisa pior, que é a mais honesta de dizer logo no começo:
Traduzir isso em palavras já é diminuir o que é.
O que existe são muitos povos, muitas cosmologias e muitos sistemas de conhecimento que foram reunidos debaixo de uma palavra só. Reunir não é o mesmo que explicar. E espremer tudo isso num artigo seria descaso.
Então este texto faz outra coisa. Ele abre a porta com honestidade: de onde vem a palavra, o que atravessa tradições muito diferentes, e o que eu entendo por xamanismo — dito como percepção minha, assinada, e não como verdade.
A palavra veio de fora
Xamanismo é uma categoria criada por estudiosos. O termo nasceu de observações feitas na Sibéria, entre povos de lá, e depois foi esticado sobre o mundo inteiro.
Foi aplicado a povos que nunca se chamaram assim. Povos que tinham nome próprio para o que faziam, dentro da própria língua, muito antes de alguém aparecer de fora para classificar.
Isso não invalida a palavra. Ela serve para a gente conseguir conversar sobre o assunto. Mas muda como se lê qualquer frase que comece com "o xamanismo é".
Sempre cabe perguntar: de quem?
As práticas são infinitamente mais antigas do que o nome que as agrupou. O nome tem pouco mais de um punhado de séculos. O que ele agrupa acompanha o ser humano desde que existe ser humano.
O que atravessa tradições diferentes
Entre povos que nunca se encontraram, algumas coisas voltam a aparecer. Aparecer em muitas não quer dizer estar em todas, e nenhuma delas é lei.
Uma relação com o mundo que não separa o humano do resto. Esta é talvez a mais importante, e a mais difícil de entender de dentro da cidade. Animais, plantas, rios, montanhas e ancestrais entram na mesma trama — não como cenário onde a vida humana acontece, mas como parte da própria trama. A separação entre natureza de um lado e cultura do outro, que para a gente parece óbvia, em muitas cosmologias simplesmente não existe.
Alguém que faz a mediação. Entre o que se vê e o que não se vê, entre a comunidade e aquilo que ela reconhece como maior que ela. Cada povo define esse alguém do seu jeito, com o seu nome, com as suas exigências e com o seu preço.
Conhecimento profundo de plantas. Guardado, testado e transmitido por gerações, sem escrita, sem laboratório e sem erro que se possa dar ao luxo de cometer duas vezes.
E o som. Canto, tambor, chocalho, sopro. O som aparece em quase toda parte, e quase sempre no centro — não como acompanhamento do ritual, mas como o que faz o ritual acontecer.
E vale dizer o que não se pode fazer com isso. Conhecimento de um povo não se atribui a outro. Um ritual não representa todas as culturas indígenas. Uma planta não tem o mesmo significado em toda tradição. E prática contemporânea inspirada num conhecimento ancestral não é aquele conhecimento — é inspiração nele, o que é uma coisa bem diferente.
Daqui em diante, é percepção minha
Meu nome é Higor Scopin, sou feitor de Rapé indígena e faço os instrumentos desta casa com as minhas mãos. O que vem agora não é definição, não é estudo e não é consenso.
É a minha leitura, e eu quero que ela esteja marcada como tal.
Porque é fácil escrever que xamanismo é o xamã que entra na força, acessa o plano espiritual e traz a mensagem de volta. É o que mais se acha por aí, é a resposta mais genérica possível — e, para o tamanho do que o assunto abrange, escrever só isso chega a ser um pecado.
Prefiro dizer de onde eu olho.
Antes de espírito, era percepção
Volta lá atrás, nos primórdios. Uma aldeia de nômades. Gente que ainda não cultivava o próprio alimento e não domesticava animal nenhum. E ali, no meio dessa gente, alguém com uma sensibilidade diferente — a xamã, o xamã.
O que essa pessoa fazia, antes de qualquer coisa, era observar.
Os ciclos da natureza. O tempo das chuvas. A migração dos animais. O que cada planta fazia em cada estação, e o que aquilo anunciava. Dessa observação vinha uma coisa muito concreta: onde caçar, quando caçar, e quando esperar.
A aldeia inteira se orientava por isso. Não era conselho espiritual: era o que colocava comida no chão.
Ou seja: antes de falar em espírito, em plano sutil ou em qualquer outra coisa do tipo, o que eu vejo ali é percepção aplicada à sobrevivência.
E é aí que eu acho que ele merece o crédito que quase ninguém dá. Essa leitura fina da natureza foi o que permitiu ao ser humano se adaptar e se integrar ao próprio ambiente — entender a fauna, entender a flora, e trazer isso para a vida. Dos remédios às plantas de poder.
A sensibilidade de perceber isso, e de fazer disso algo útil, para mim já era xamanismo.
E ele nunca deixou de estar ali. Está no antes, está na origem, está na formação das culturas — em como cada povo interpretou o próprio ambiente e em como cada um, do seu jeito, reverenciou uma presença maior que harmoniza o de fora e o de dentro.
E eu posso estar olhando pelo lugar errado
Um cientista lê esse mesmo trecho da história e chama de outra coisa: adaptação e evolução, sem nada de sagrado no meio. E ele tem razão dentro do que estuda.
Outra pessoa lê e entende de um terceiro jeito. Também cabe.
E eu nem sei se tudo isso que eu falei se encaixa bem dentro da palavra xamanismo. Talvez encaixe. Talvez seja outra coisa, que ainda não tem nome. O assunto é grande demais para eu ter certeza, e eu não vou fingir que tenho.
Escrevo o que eu percebi. Você faz o que quiser com isso.
Na minha opinião, o acaso não existe
Sabe a sensação de olhar para um horizonte, ou para uma vista do alto, e perceber que as coisas estão no seu devido lugar? Não arrumadas — encaixadas.
É essa sensação que sustenta o que eu penso: nada está ali por acaso. Tudo acontece por uma necessidade de acontecer, e o que falta é a nossa percepção alcançar qual é.
Isso não é conclusão. É contemplação, que é uma coisa diferente — e é o que este texto todo é, no fundo.
A mesma assinatura, em toda escala
Existe a mesma harmonia na forma como uma galáxia se organizou e na forma como se organiza a concha de um caracol.
Está no padrão geométrico do miolo de um girassol. Na formação das escamas de uma pinha. Na espiral de uma planta que ainda vai abrir. E está na nossa célula, que é pequena demais para a gente ver e obedece ao mesmo tipo de ordem que o que é grande demais para a gente alcançar.
São geometrias que se repetem em escalas que não têm nada a ver uma com a outra.
Na minha percepção, essa geometria é a assinatura do autor. Como a assinatura do artista no canto do quadro — quem pintou deixou o nome em toda parte, e a gente passa a vida olhando para ele sem reparar.
Aqui é o ponto mais pessoal de tudo, e o que menos se pode provar. Ninguém precisa concordar para receber o resto.
Mas ela explica uma coisa que vai importar mais adiante: quando alguém copia um projeto natural para trazer à própria realidade, aquilo já deu certo antes. Passou por tempo, por adaptação e por evolução até chegar naquele ponto. As coisas não estão lá por acaso.
O planeta funciona como uma coisa só
Tem uma coisa que a ciência mostrou faz pouco tempo, com satélite e câmera, e que ajuda a entender do que a gente está falando.
A série One Strange Rock, da National Geographic, conta essa história pela boca de astronautas que viram tudo de cima.
Tempestades de poeira do leste da África atravessam o Atlântico e caem sobre a Amazônia, adubando o solo. A floresta, alimentada, devolve vapor à atmosfera e forma um rio de nuvens que corre por cima dela — tão vasto que, do espaço, a floresta não aparece verde: aparece branca, coberta por esse rio.
Esse rio corre até bater nos Andes, onde vira chuva. A chuva desce a montanha erodindo a rocha e leva nutriente para o oceano. No oceano, esse nutriente alimenta o fitoplâncton. E é do fitoplâncton que vem boa parte do ar que a gente respira.
A poeira de um deserto vira o ar do seu pulmão.
Nada disso está preso na floresta, no rio ou no animal. É o planeta inteiro, trabalhando junto. E é exatamente isso que o nome desta casa carrega: Gaia é a Terra entendida como um corpo só.
O couro da jiboia
Este relato eu ouvi de um indígena. Não é história documentada, e eu conto como me contaram — mas foi ele que me fez entender tudo o que está escrito acima.
Um pesquisador americano passou um tempo longo numa aldeia, estudando a cultura. Uma das primeiras coisas que ele reparou foi a organização de tudo: a logística das construções, o formato da aldeia, o lugar do feitio, o lugar dos rezos. Cada coisa no seu devido lugar, e as distâncias entre elas como se tivessem sido calculadas.
Depois de muito tempo ali, já com mais intimidade, ele perguntou ao pajé como a aldeia tinha chegado naquele formato.
O pajé disse que depois eles conversavam.
Mais tarde, num ritual de Ayahuasca, o pesquisador estava na força quando, no meio da vivência, conseguiu ver a aldeia de cima. A vista de um pássaro. Cada oca no seu lugar, cada caminho, cada distância — o desenho inteiro de uma vez.
Ao sair, sentou-se de novo ao lado do pajé e contou o que tinha visto.
O pajé não respondeu. Pegou um couro de jiboia que fazia parte de um dos instrumentos sagrados dali, e mostrou a ele a parte da cabeça, com o desenho das manchas.
Era o mesmo desenho.
O mesmo formato, a mesma logística, a mesma distribuição que o pesquisador tinha acabado de ver do alto. O pajé não precisou dizer mais nada.
Ele não tinha os instrumentos de medida que a gente usa. Tinha observação. Olhou para o desenho da cabeça da jiboia, reconheceu ali uma perfeição que a natureza levou muito tempo para chegar, e construiu por cima dela.
Não é falta de ferramenta. É outro jeito de conhecer.
A natureza também é hostil, e a gente esqueceu disso
Tem uma parte dessa conversa que costuma ficar de fora, porque não é bonita.
A natureza é abundante e é rica. E é também agressiva. Ela não deve nada a ninguém, e não faz concessão.
A gente não está acostumado com isso. O ser humano de hoje é mimado — eu inclusive. A gente reclama da vida, das dificuldades, do que não deu certo, e faz isso de dentro de um mundo construído justamente para nos proteger do que era a realidade.
Porque a realidade verdadeira do ser humano não é só a sociedade. É a natureza, e são os limites do corpo.
Imagina jogar uma pessoa da atualidade nua e descalça no meio da floresta. Quanto ela sofreria — não por fraqueza, mas por distância. É a prova cabal de o quanto a gente se afastou. Existem adaptações, existem quem saiba, mas para a maioria de nós aquilo é território estrangeiro.
E vendo isso dá para entender por que tanta gente esqueceu que a reintegração importa. Não é romantismo. É voltar para onde a gente veio.
A árvore que dá fruto, e a nossa mão nisso
Pensa como é incrível uma árvore dar frutos tão gostosos.
É claro que a gente domesticou boa parte das espécies, e que na natureza, por conta própria, muitas seriam bem diferentes do que são hoje. Isso vale para a flora e vale para a fauna — em alguns casos a gente interferiu demais.
Mas é curioso pensar: o quão diferentes elas poderiam ser?
O ser humano tem um papel enorme em como as coisas estão. Existe gente em praticamente toda parte do mundo, inclusive em lugares inóspitos. E existe vida não humana em lugares onde é difícil até perceber que há vida.
Essa capacidade de se adaptar e de adaptar o que está em volta é a nossa marca. O que a gente perdeu no caminho não foi a capacidade — foi a reverência.
As plantas que ampliam a percepção
As Medicinas da floresta, as plantas de poder, os enteógenos: parece que sempre estiveram ali.
E eu acredito que elas foram um dos primeiros gatilhos que fizeram o ser humano olhar para um padrão que já era da realidade dele e questionar aquele padrão. Olhar com outros olhos. Entender de outro jeito uma coisa que já estava na frente o tempo todo.
É como olhar para um desenho de duas dimensões.
Ele é o que é: um desenho plano, na folha. Mas olhar para ele e conseguir imaginar que aquilo poderia ser tridimensional — isso amplia a percepção. Não mudou o desenho. Mudou quem olha.
E aí vem a pergunta que este mundo torna difícil: como ampliar a percepção num lugar que trabalha o tempo todo para te distrair?
Mas não é só ir a um ritual
Escrevi acima que hoje se conhece o xamanismo pela roda, pela cerimônia, pelo ritual. É verdade, e para muita gente para por aí mesmo — vai, entra na força, sai, e a vida continua igual.
Só que não é assim para todo mundo.
Foi no xamanismo que o meu coração e o meu entendimento se abriram para perceber a magia do mundo. Deixou de ser um mundo em que as coisas simplesmente acontecem por consequência e a gente lida com elas. Passou a ser um mundo em que as coisas acontecem por outro motivo.
Mas isso depende do praticante, e não do ritual. A Medicina pode chamar a sua atenção para que você olhe o mundo de outro jeito — se isso não te atrair de verdade, é só mais um ritual.
Não é promessa, não é garantia, e não acontece por frequência nem por quantidade.
O que a gente está deixando passar
A vida humana é importante. Mas eu acho errado dizer que ela vale mais do que uma espécie inteira que entra em extinção. Ou do que uma árvore derrubada só porque sim.
Deve haver coisa mais funda em cada um desses assuntos, e eu não vou fingir que domino todos eles.
O que me entristece é outra coisa, e é simples: existe uma tecnologia biológica inteira ao nosso alcance, uma integração com a natureza que está disponível e que só pede observação — e ela vem sendo ignorada, esquecida, ou tratada como se não existisse.
O xamanismo raiz e o de hoje não são a mesma coisa
Quem vive dentro daquela realidade não a pratica: depende dela. Precisa daquele entendimento para se alimentar e para sobreviver.
Tem também uma diferença de tempo. A cidade vive no depois — no amanhã, na próxima tarefa, na cabeça agitada o tempo todo. Naquela aldeia dos primórdios, pensava-se no agora, porque era o agora que sustentava a vida.
É por isso que os povos originários, guardiões dessas Medicinas e desses conhecimentos, estão mais perto da raiz. Não por serem melhores — por estarem dentro. E é por isso que essa filosofia, se é que se pode chamar assim, continua viva entre eles enquanto quase se apagou entre nós.
A Medicina de pisar descalço
Pouca gente hoje sabe o valor do que é simples.
Pisar descalço no chão. Sentar perto de uma árvore. Respirar o ar que sobe da terra depois da chuva, com aquele cheiro que todo mundo reconhece e ninguém sabe explicar. Ficar perto de bicho.
Os animais continuam raiz. Mesmo os que a gente domesticou, alguma coisa neles não se perdeu.
E a gente é bicho também. A gente esquece disso e passa a viver como se fosse programado, funcionando de tarefa em tarefa, quando somos seres de presença.
Não é promessa de resultado, e não é receita. É o que esta casa observa: essa proximidade alimenta alguma coisa que a modernidade não alimenta.
E um cuidado que vale mais que todo o resto
De nada adianta ampliar a percepção, abrir a sensibilidade e acessar o que quer que seja se a mensagem sair poluída pelo ego.
Esse é o risco de todo caminho que dá acesso a alguma coisa. O entendimento pode chegar limpo e ser sujo depois, na hora de contar — vira vaidade, vira autoridade sobre os outros, vira status.
Presença, humildade e serviço não são enfeite do caminho. São o caminho.
Esta folha é uma porta, não uma resposta
Não falo em nome de tradição nenhuma, e não represento povo algum. O que esta casa faz é se inspirar, estudar e agradecer.
E tem uma coisa que eu preciso dizer antes de fechar, porque é o que mais acontece comigo.
Quanto mais eu observo, e quanto mais eu compreendo um pouquinho dessa magia, mais eu descubro o quão pouco sei.
Não é modéstia. É o que acontece de verdade: cada coisa que se entende abre três que não se entendia antes. A porta não leva à sala. Leva a outra porta.
Foi por isso que este texto começou dizendo que não ia definir nada.
O que está escrito aqui é o começo de um galho, e ele vai crescer: os tipos de sopro, os animais de poder e a razão de as tradições se inspirarem neles, os instrumentos de vibração, as plantas.
Se você chegou por causa do Rapé, o caminho continua em o que é Rapé indígena. Se foi pelos instrumentos, comece por como nasce um Kuripe e pelo Tepi.
Conhecer antes de concluir. Compreender antes de reproduzir. E respeitar cada conhecimento dentro do contexto em que ele nasceu.
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